Opinião

Paulo Afonso - Bahia - 27/05/2019

O Roda Viva tem histórias...

por Antônio Galdino
(Foto: divulgação)
Porque não restaurá-lo e transformá-lo em parte do projeto Museu do Sertão ou Museu da Caatinga?
Porque não restaurá-lo e transformá-lo em parte do projeto Museu do Sertão ou Museu da Caatinga?

A vida por estas terras era tão pacata e calma, nos idos da década dos anos de 1940, e as poucas casas da região formavam o povoamento que, como todo esse pedaço de terras do lado baiano do rio São Francisco, se chamava Forquilha.

Agito mesmo só o das muitas águas da Cachoeira de Paulo Afonso que ficou ainda mais famosa quando o Imperador Dom Pedro II, arribou do aconchego da corte, no rio de Janeiro, para conhecer essa outra majestade, cujo barulho das águas se ouvia a léguas de distância e até mereceu, anos depois, derramados versos de um dos maiores poetas do Brasil, o baiano Antônio de Castro Alves.

Mas, no finalzinho desta década de 1940, já no ano de 1948, em 15 de março, o governo federal aprovou a criação da Chesf, que existia no papel, nos Decretos assinados por Getúlio Vargas, desde 3 de outubro de 1945 e a partir dos meados de 1948 começou a chegar por estas terras sertanejas, gente que queria trabalhar nas obras de construção da Usina Paulo Afonso, concebida pelo governo federal para levar a “luz de Paulo Afonso” para todo o Nordeste.

E aí o agito do lugar não parou mais. Toda hora os caminhões paus-de-arara despejavam um monte de homens e quase todos ou eram ainda solteiros ou tinham deixado as famílias nas suas terras.

Com a chegada de tanta gente, o comércio cresceu, apareceu todo tipo de negócio por aqui. Teixeira, Zé Miron instalaram seus laboratórios fotográficos porque o povo precisava de foto para fazer o registro de trabalho e também precisavam registrar os acontecimentos que iam aparecendo.

E vieram os mercadinhos, as lojas de tecidos e confecções, as sapatarias, as bodegas, os bares, o campo de futebol, os clubes sociais e as igrejas que depois da semana puxada de trabalho pesado, cavando a rocha feito tatus, os “cassacos” precisavam arejar a cabeça, como se dizia, tomar uma bicada de vez em quando e também, aliviar-se um pouco das tensões da semana inteira, cada um do seu jeito.

E aí, para atender esse “nicho de mercado” como se diria hoje, foram nascendo as “casas de recurso”, as boates, os cabarés que também atraíram as moças bonitas da profissão mais antiga do mundo que começaram a se chegar por aqui e, mais afastado do miolo da cidade naqueles tempos, se estabeleceu a zona do meretrício.

Ali, se a procura era grande, a concorrência era ainda maior e os estabelecimentos e as responsáveis por eles ficaram famosos. Os cabarés de Maria Cavalcante, Coca-Cola, Dulce, dentre outros eram os mais procurados e afamados. O Roda Viva é um pedaço da história de Paulo Afonso.

Dulce, antiga proprietária do Roda Viva, mora em Paulo Afonso e já foi candidata a vereadora na cidade, onde é muito querida e todos os anos ela aparecia nos desfiles cívicos, com dois cachorrinhos bem vestidos, passeando com eles na avenida Apolônio Sales e sendo aplaudida pela população. Dulce, doente e só, mora hoje nos Vicentinos.

Dizia um pioneiro que já fez sua última viagem há tempo, que “esses lugares eram os preferidos de muita gente importante, de autoridades da Chesf e da cidade. Até juiz de direito dava uma chegadinha por lá, de vez em quando”. E se desdobrava numa gargalhada.

Já se falou na cidade que certa vez uma destas famosas proprietárias de uma destas boates precisou comparecer ao Fórum, décadas atrás, intimada que fora em um processo. Conta-se que ela sentou na frente do juiz que leu o que pesava contra ela e lhe perguntou o que ela poderia dizer sobre isso.

A velha meretriz olhou bem para o juiz e disse: ‘É doutor, quando a gente é nova, bonita, vocês procuram a gente que acaba sendo professora de vocês na vida, o senhor entende, não é? Mas quando a gente fica velha é assim, tem que passar por essa humilhação...”.

O juiz, um dos prováveis alunos da mulher que estava à sua frente, imediatamente olhou para o seu assistente, tomou a caneta e disse: ‘Olhando bem, esse processo está desprovido das provas que possam incriminar esta mulher. Arquive-se, por falta de provas”. E voltando-se para a acusada, completou: “A senhora está liberada. Pode ir.”

Um destes lugares de encontros, há 50, 60 anos atrás, era o Roda Viva, cujo prédio ainda resiste ao tempo e que agora é alvo de um começo de movimento de populares pelo seu tombamento histórico. E tudo começou com a postagens de algumas fotos nas redes sociais por Pedro Viana, ex-diretor da Liga Desportiva de Paulo Afonso. Seguiram-se muitos comentários, sugestões e brincadeiras sobre o lugar.

Em um dos comentários se dizia que, embora não fosse ali um lugar mal-assombrado “reza a lenda que à noite sempre se ouvia gemidos, neste local”. (Dheisinho).

Há décadas que o prédio imponente do Roda Viva está fechado, se acabando com o tempo, à beira da BR-110, bem ao lado da Posto da Polícia Rodoviária Federal.

Há anos que o escritor e historiador João de Sousa Lima vem lutando para construir o Museu do Sertão ou da Caatinga e ele tem mais de 3 mil peças de tudo que se imaginar, desde relíquias do cangaço, a cristaleiras, pilões, bicicletas antigas. Muita coisa. Porque então não se faz a restauração e o tombamento desse prédio, se libera parte do terreno no seu entorno e ali se constrói esse Museu do Sertão ou da Caatinga com esse prédio incorporado a esse projeto?

Fica a sugestão para que o Roda Viva volte a ser um grande ponto de agito da cidade, agora cultural e histórico: O Museu do Sertão, Museu da Caatinga, ou que nome venha a ter.

 


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